Publicado por: paulobedran | 15/10/2013

Peru de carro: viajando de Porto Velho a Cusco.

Peru de carro: viajando de Porto Velho a Cusco.

Com este post damos início à sequência que contará sobre uma inesquecível viagem de carro ao Peru; cruzamos a Cordilheira dos Andes rumo ao Vale Sagrado dos Incas, em seguida, pelo altiplano andino, percorremos o caminho até o Lago Titicaca.  
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Carretera Interoceanica | Peru de carro

Ainda morávamos em Porto Velho, portanto, nossa localização era privilegiada. Apenas 1.500 quilômetros separam a capital rondoniense da cidade de Cusco. Partindo de Porto Velho, são necessários dois dias para alcançar a cidade que um dia foi o principal centro cultural e administrativo do Império Inca. Não arrisque vencer essa distância em um mesmo dia, apesar das excelentes estradas peruanas, os 500 quilômetros finais impõem uma marcha reduzida, sobe-se a Cordilheira dos Andes. Em determinados trechos da rodovia, a altitude se aproxima dos 5.000 metros. Diversos fatores concorrem para travar a viagem, a altitude interfere no desempenho do veículo, o relevo confere inclinações extraordinárias à rodovia, além da significativa acentuação da maioria das curvas. Outros fatores ambientais ainda podem interferir: as chuvas tropicais na base da cordilheira, serração e neve nos trechos mais altos…

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Travessia do Rio Madeira | Peru de carro

Saindo de Porto Velho, o objetivo do primeiro dia foi chegar à cidade de Puerto Maldonado, já no Peru. O deslocamento teve início pela BR-364, sentido Rio Branco. No quilômetro 230, a rodovia vai de encontro ao Rio Madeira, não existe ponte, a travessia é feita de balsa (9°40’0.76″S 65°26’9.02″O), custa R$10 por carro. Uma curiosidade desta travessia é o tão próximo tal embarcação passa do território boliviano, a poucos metros da bandeira que demarca o território. Daí em diante, seguimos para Assis Brasil, cidade brasileira que faz fronteira com a peruana Iñapari. Pouco antes de Rio Branco, ainda em terras tupiniquins, pega-se a Estrada do Pacífico ou Carretera Interoceanica, como é chamada no lado peruano. Tal rodovia é binacional e funciona como eixo de integração entre o Brasil e o Peru; a BR-317 representa o trecho brasileiro, enquanto, no Peru, passa a ser identificada por PE-30. Do entroncamento da BR-364 com a BR-317 (10° 4’13.66″S  67°35’2.94″O) até a fronteira são cerca de 320 quilômetros.

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Carretera Interoceanica – Início da PE-30 | Peru de carro

De Porto Velho a Assis Brasil, o motorista terá pela frente rodovias de pista simples, precariamente sinalizadas, com trânsito moderado, pavimentação irregular e pouca fiscalização. Atravessada a fronteira, a única coincidência entre as rodovias é o número de faixas de rolamento. As estradas peruanas são impecavelmente sinalizadas, asfalto em perfeito estado de conservação, pouco trânsito e fiscalização estatal constante. Durante nossa estada em solo peruano, fomos abordados cinco vezes em barreiras policiais. Não tivemos nenhum problema com a polícia local, fomos tratados com cordialidade e, constatada a regularidade da documentação, liberados com votos de boa viagem!

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Subindo a cordilheira (PE-30) | Peru de carro

Todo procedimento burocrático necessário à entrada no país vizinho é feito na própria fronteira. O viajante brasileiro é dispensado de visto e de passaporte, basta o documento de identidade e o Certificado Internacional de Vacinação contra febre amarela; se estiver em veículo próprio, não alienado, basta o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo atual. De acordo com normas estabelecidas pelo Ministério do Comércio Exterior e do Turismo do Peru, todo veículo automotor que circule pelo território peruano deve contar com uma apólice de Seguro Obrigatório de Acidentes de Trânsito - SOAT. Portanto, se for entrar no Peru com seu veículo, adquira este serviço nas principais cidades e postos fronteiriços. O SOAT não é comercializado em Iñapari, na agência do Milbanco de Puerto Maldonado custa cerca de US$ 8. A carteira de habilitação brasileira é válida no Peru, mas, se preferir, pode solicitar, junto ao DETRAN de seu estado, a emissão da Permissão Internacional para Dirigir (PID). Particularmente, independente de legislação, prefiro viajar utilizando meu passaporte e minha PID; pode até ser superstição, mas me sinto mais seguro, acredito que tais documentos evitam possíveis desentendimentos. Atenção! A CNH não serve como documento de identidade no Peru, assim sendo, a carteira de habilitação deve ser portada sempre em companhia de um dos documentos de identificação aceitos.

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Em solo peruano – Iñapari | Peru de carro

Em Iñapari, o viajante deve aproveitar a parada e tomar uma Inca Kola para ir entrando no clima. Para quem não conhece, trata-se de um refrigerante à base de erva cidreira, criado no Peru, no início do século passado. Atualmente, a marca pertence à Coca-Cola Company. Abasteça o veículo em Iñapari e não se esqueça de trocar alguns reais por moeda peruana: novo sol. Neste tipo de viagem, dinheiro em espécie é indispensável; percorrem-se trechos inóspitos e despovoados, onde os poucos comerciantes locais desconhecem os cartões magnéticos. Apenas 220 quilômetros separam Iñapari de Puerto Maldonado. Neste trecho o relevo é plano e a paisagem ainda nos era familiar, florestas tropicais, porém, aparentemente preservadas.

Puerto Maldonado tem aproximadamente 40 mil habitantes, é a principal cidade da região. Uma boa opção para a pernoite, oferece hospedagens razoáveis e locais para jantar. Não crie muitas expectativas, as melhores opções talvez deixem a desejar; lembre-se que você está no interior da América do Sul, numa região relativamente isolada, num país em desenvolvimento que ainda apresenta relevantes problemas estruturais. Não desperdice a oportunidade de observar e viver um pouco do cotidiano daquele povo. Aproveite para dar umas voltas pelo centro da cidade, mesmo que chegue pela noite. Provavelmente vai achar o lugar, no mínimo, curioso. Irá se despertar para o trânsito aparentemente caótico, para os tipos de veículos utilizados, para o biotipo da população, para os costumes locais, principalmente os hábitos alimentares. Jante numa polleria, estabelecimento que comercializa frangos assados, servidos em diversas opções de frações ou mesmo inteiros. Aproveitamos a oportunidade para visitar um lugar que havíamos conhecido há alguns anos atrás, numa outra viagem à região. Chama-se Super Astoria, uma interessante polleria localizada numa das principais avenidas da cidade.

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Carretera Interoceanica | Peru de carro

O trecho de Puerto Maldonado a Cusco foi um dos pontos altos da viagem, 500 quilômetros de cenários incríveis. A sinuosa subida da cordilheira guarda surpresas a cada curva. No primeiro extrato deste percurso, as montanhas surgem na paisagem elevando as frondosas florestas tropicais. A altitude vai raleando a vegetação, até que as luxuriantes florestas dão lugar às pastagens do altiplano. A 4.700 metros de altitude, a paisagem muda de forma radical, estávamos no altiplano andino, frio e picos nevados passaram a nos fazer companhia.

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A pouco menos de 200 quilômetros de Cusco (13°37’58.73″S  71° 8’4.84″O), uma placa na beira da estrada nos chamou a atenção: trucha frita! No meio do nada, um letreiro sugeria que ali poderíamos almoçar. Simplesmente inacreditável, parada obrigatória para os que cruzarem aquela região. Em um humilde abrigo envidraçado, duas irmãs, nativas, servem truta frita, fresca, acompanhada de batatas da região. Impossível descrever o prazer que nos proporcionou aquela refeição; cenário, cheiros, texturas e sabores fartaram nossos desejos e saciaram nossa fome. 

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Lhamas | Peru de carro

Deste ponto a Cusco, prepare seus sentidos: paisagens bucólicas, plantações diversas, dezenas de pequenos povoados às margens da rodovia, lhamas, trajes típicos… Para um explorador, uma experiência emocionante! Quase chegando a Cusco, uma curiosa construção chama a atenção, são as ruínas de Qaranqayniyuj (13°37’17.99″S 71°42’28.20O). A edificação inca dá as boas vindas aos visitantes, o preservado portal é uma pequena amostra do que ainda lhes aguardam: as ruínas do Império Inca!

Ruínas de Qaranqayniyuj | Peru de carro

Cusco é cena do próximo capítulo, espero que estejam curtindo viajar conosco! 

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Rumo a Cusco | Peru de carro

Atenção! Dicas importantes!

Não esqueça de revisar seu veículo antes da viagem, muitos modelos comuns no Brasil, são escassos por lá, o que dificulta encontrar peças de reposição e mão-de-obra especializada. As estradas exigem dos motores e dos freios, portanto, não descuide, pequenas manutenções podem se transformar em grandes problemas. Não abra mão de um seguro do veículo com cobertura internacional, seus serviços são providenciais em possíveis situações de quebra. Esteja preparado para os males da altitude, não existe regra geral para definir os efeitos do ar rarefeito.  Enquanto algumas pessoas se declaram imunes à altitude, outras passam muito mal com a diminuição do oxigênio. A primeira dica é prudência, ouça seu organismo e respeite seus limites. A princípio, trata-se de uma questão de adaptação, em média, dois dias são suficientes para a aclimatação. Dependendo dos efeitos, você pode se valer de alguns produtos, como o Oxishot e as Sorojchi Pills, ambos facilmente encontrados nas farmácias peruanas. O primeiro é um recipiente descartável que contém oxigênio medicinal, pode ser facilmente acondicionado numa bolsa ou mochila, serve para reparar as taxas de oxigênio naqueles cujo organismo ainda não se aclimatou. As pílulas Sorojchi Pills prometem prevenir e aliviar os sintomas do mal da altitude, também chamado de mal da montanha ou simplesmente soroche. São confeccionadas à base de ácido acetilsalicílico e cafeína, não custa consultar seu médico sobre o possível uso de tais medicamentos.

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Publicado por: paulobedran | 02/07/2013

Lençóis Maranhenses: desvendando o deserto brasileiro.

Lençóis Maranhenses

Conhecer os Lençóis Maranhenses foi uma tarefa mais difícil do que prevíamos, mas valeu a pena!

Os Lençóis Maranhenses abrigam cenários únicos e visuais surpreendentes. A região é muito extensa, diversas agências locais vendem passeios, mas poucas oferecem opções que permitam ao turista uma experiência mais autêntica e intimista com a região. Aliás, o setor de serviços é pouco desenvolvido no Maranhão. Limitações legais e geográficas dificultam o acesso às atrações naturais, o que torna a presença de uma agência de turismo quase que obrigatória. Diversos povoados e cidades fazem fronteira com os Lençóis Maranhenses: Primeira Cruz, Santo Amaro, Barreirinhas, Mandacaru, Atins… A melhor estrutura turística, ainda que precária, está em Barreirinhas.

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Travessia Atins-Barreirinhas | Lençóis Maranhenses

Para quem chega ao Maranhão por via aérea, através da capital do estado, ônibus diários partem para Barreirinhas desde o Terminal Rodoviário de São Luís, outra opção é o transporte em microônibus oferecido pelas agências locais. Aqueles que percorrem a Rota das Emoções*, em veículos 4×4, têm outras opções: a partir do município de Paulino Neves, podem seguir para Barreirinhas por uma trilha de 40 quilômetros, ou seguir para Caburé, passando pelos Pequenos Lençóis e por um trecho de praia. Caburé oferece algumas pousadas, fica na foz do Rio Preguiças, é uma opção para quem prefere isolamento e rusticidade. Do outro lado do Preguiças fica Atins, outro povoado que pode servir como ponto de apoio para os turistas. A pousada Rancho do Buna é muito bem recomendada por viajantes. Como seguíamos a Rota das Emoções, num automóvel 4×2, estacionamos em Paulino Neves e seguimos para Barreirinhas num 4×4 fretado. É possível alcançar Barreirinhas, em um veículo 4×2, desde o Delta do Parnaíba. Mas, se os Lençóis Maranhenses forem o destino final de sua viagem, tal opção mostra-se desvantajosa, pois, o desvio necessário é significativo (cerca de 500 km) e, em Barreirinhas, o veículo 4×2 não tem muita utilidade. 

Grande parte do material que consultamos antes da viagem (guias e blogs) elegia as mesmas atrações como principais: passeio da Lagoa Azulpasseio da Lagoa Bonita e passeio do Rio Preguiças. Uma das grandes surpresas que tivemos, foi descobrir que estas fontes estavam, de certa forma, enganadas. Não que tais passeios não sejam imperdíveis, mas os Lençóis Maranhenses oferecem muito mais. Um mapa da região é instrumento suficiente para compreender o quão limitados são os passeios mais oferecidos pelas agências. Via de regra, as agências de turismo, no Brasil, não se preocupam com a qualidade e o conteúdo dos serviços vendidos; se ocupam em ganhar dinheiro a partir do menor esforço. Como o brasileiro é um povo passivo e desinformado, engole gato com a certeza de estar levando lebre. O que garante a perpetuação da picaretagem e da exploração aos turistas. Nos Lençóis Maranhenses, não haveria de ser diferente. Quanto aos passeios, experimentamos quatro agências distintas, infelizmente, grande parte decepcionou.

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Lagoa Capotiraguá | Lençóis Maranhenses

A região dos Lençóis Maranhenses é um grande deserto, uma imensidão de dunas decorada com milhares de lagoas de águas cristalinas. Vale lembrar que as lagoas são formadas pelas chuvas, não são perenes, portanto, as paisagens ostentadas nos cartões postais dependem da generosidade do período das águas. A melhor época para visitar é de junho a agosto, logo ao final da temporada de chuvas, onde é maior a probabilidade de encontrar as lagoas cheias. As unidades de conservação abrangem quase 400.000 hectares, o que torna o desejo de conhece-las um verdadeiro desafio. A região dos Lençóis Maranhenses compreende duas grandes áreas: os Grandes Lençóis (Parque Nacional) e os Pequenos Lençóis (Área de Proteção Ambiental – APA). Além da grande extensão, a dificuldade de acesso torna-se outro complicador aos interessados em desvendar os Lençóis Maranhenses. O Parque apenas é alcançado através de trilhas, complicadas até para os veículos 4×4. Estas dificuldades fazem os turistas reféns das agências de turismo.

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Lagoa do Funil | Lençóis Maranhenses

Partindo de Barreirinhas, dois passeios aos Lençóis Maranhenses são oferecidos com saídas constantes: o passeio da Lagoa Azul e o passeio da Lagoa Bonita. Ambos oferecem ao turista uma bela amostra dos Grandes Lençóis. Os turistas são levados até as dunas, em veículos 4×4 preparados para transportar passageiros, com bancos adaptados em suas carrocerias. Depois de cruzar o Rio Preguiças, através de uma balsa, o veículo segue por estreitas estradas de areia, com diversos trechos alagados, uma aventura à parte. Estacionam aos pés das dunas, de onde iniciam as caminhadas. Nos dois roteiros, os visitantes têm a oportunidade de caminharem sobre as imponentes montanhas de areia e de se refrescarem nas águas cristalinas que formam as diversas lagoas. Tais passeios duram meio dia, portanto, é possível fazer os dois num mesmo dia. Cada passeio custa cerca de R$60 por pessoa.

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Lagoa do Caço | Lençóis Maranhenses

Os Grandes Lençóis estão submetidos a regras rígidas de visitação. Por se tratar de um Parque Nacional, veículos automotores são proibidos de trafegar pelo parque, o que dificulta a exploração turística da região. Cruzar o parque?! Só a pé! E existem guias locais especializados nestas travessias. Para tanto, são imprescindíveis: disposição e resistência física. Para atravessar o parque de um extremo ao outro, são necessários quatro dias. Mas, se não tiver tempo, disposição ou preparo para tanto, pode optar por um trecho menor. Foi o que fizemos, como não tínhamos tempo para a grande travessia, optamos por caminhar de Atins a Barreirinhas, pelos Grandes Lençóis. Caminhar pelos Lençóis Maranhenses é uma experiência incrível, pelo desafio, pelas dificuldades e principalmente pelo cenário: surreal! Se estiver com o tempo contado, o trekking Atins-Barreirinhas é uma boa opção. Encontre um guia em Barreirinhas e providencie o transporte para Atins. A melhor opção é uma lancha rápida, que parta pela manhã, a descida do Rio Preguiças dura cerca de uma hora. Chegando em Atins, aproveite para fazer uma refeição leve no restaurante do Sr. Antônio, fica no Canto do Atins. De lá, inicia-se a caminhada rumo a Barreirinhas, cerca de vinte quilômetros de dunas separam as duas cidades. A travessia durou 6 horas, já incluídas as paradas para banho e hidratação. Tantas dunas e lagoas chegam a desnortear o viajante… a cada cume, um novo cenário. Planeje sua caminhada de forma que a Lagoa Azul seja alcançada antes do retorno dos veículos que fazem o passeio pela tarde; assim poderá retornar à cidade num 4×4. Resumo do percurso: de Barreirinhas à Atins pelo Rio Preguiças, de lancha rápida, também conhecida como “voadeira”; de Atins à Lagoa Azul caminhando pelos Grandes Lençóis; da Lagoa Azul à cidade de Barreirinhas num veículo 4×4. A diária do guia para este tipo de passeio gira em torno de R$120, a descida do Rio Preguiças, numa lancha rápida, custa algo em torno de R$50 por pessoa, o trajeto final no 4×4, R$ 30 por pessoa. A caminhada pode ser feita no sentido inverso, Barreirinhas-Atins, opção que provavelmente implicará numa pernoite em Atins, visto a dificuldade de transporte para Barreirinhas nos finais do dia. 

Uma opção interessante para apreciar a região dos Lençóis Maranhenses é do alto… voos panorâmicos saem do aeroporto de Barreirinhas, diversas vezes ao dia, duram 30 minutos e custam R$250 por pessoa. São realizados em pequenas aeronaves do tipo monomotor, com capacidade para 3 a 6 passageiros. Considerando as características do voo e o tipo de aeronave utilizada, o valor cobrado é prova do oportunismo da agência responsável. Acabamos nos rendendo à extorsão, convencidos da conveniência daquela oportunidade. A experiência é fantástica, o visual é indescritível! Uma curiosidade: o aeroporto de Barreirinhas encontra-se interditado pela Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC, mas tais restrições não são respeitadas por lá. As operações no aeródromo acontecem normalmente, de forma clandestina. O voucher pode ser adquirido em qualquer uma das dezenas de agências de viagem da cidade. Brasil! Enquanto estiver dando certo, os espertos se enriquecem e as autoridades se abstêm de cumprir com suas obrigações.

Pequenos Lençóis | Lençóis Maranhenses

Pequenos Lençóis | Lençóis Maranhenses

Para conhecer os Pequenos Lençóis, a dica é: quadriciclo. Passeios saem de Barreirinhas diariamente. Mas, antes de contratar, preste atenção nos detalhes. Procure se informar sobre o estado de conservação dos veículos, sobre a quantidade de pessoas no passeio e pormenores do roteiro. Prefira máquinas novas, garantem mais segurança e diminuem as chances de perderem um dia de viagem. Como aconteceu com um casal que conhecemos na cidade, o quadriciclo quebrou na metade do caminho, esperaram horas pelo apoio, perderam um dia de férias. Os passeios são guiados, guias seguem na dianteira, puxando a fila de turistas, que, às vezes, são muitos. A quantidade de turistas, num mesmo passeio, interfere na qualidade da diversão. Principalmente neste, onde o sincronismo da turma é essencial à otimização do tempo. Cobram por quadriciclo algo em torno de R$350, dura todo o dia, combustível incluso. Cada quadriciclo comporta duas pessoas: condutor e passageiro. Se procurar, encontrará quem faça o passeio, na modalidade privado, pelo mesmo valor, apenas duas máquinas: a do guia e a do turista. Essa foi nossa opção, e ficamos satisfeitos, pois, conduzimos o dia ao nosso gosto. Existem duas opções de trajeto: a primeira, e mais oferecida, volta-se pelo caminho da ida, pelos Pequenos Lençóis; a segunda opção, a nosso ver, mais interessante, volta-se margeando os Grandes Lençóis, por trilhas que ligam Atins a Barreirinhas. Essa opção é menos oferecida por ser menos cômoda às agências, pois, chegando a Caburé, os quadriciclos têm que cruzar o Rio Preguiças de balsa. Como na região impera a lei do menor esforço, terá que garimpar alguém que aceite este trajeto. Não desista, vale a pena o esforço! O caminho até Caburé é muito bonito, num primeiro momento percorrem-se trilhas abertas na caatinga, um emaranhado de estradas que ligam os vilarejos da região. Em seguida, vêm os Pequenos Lençóis… dunas e lagoas, uma paisagem de tirar o fôlego. Como os próprios nomes sugerem, o que difere os Pequenos Lençóis dos Grandes Lençóis são as proporções. Nos Pequenos, tanto as dunas como as lagoas são menores, mas não menos interessantes. Por fim, segue-se pela praia até a foz do Rio Preguiças.

A cidade de Barreirinhas não oferece atração alguma, apesar de ser considerada a porta principal para os Lençóis Maranhenses, mal supre as necessidades básicas do turista com hospedagem e alimentação. Lá, é difícil até achar uma hospedagem justa. No geral, as pousadas são caras, as acomodações não passam de razoáveis e os serviços deixam a desejar. Existem poucos bons restaurantes, experimentamos três, localizados na avenida Beira Rio. O restaurante Barlavento tem instalações simples, um cardápio modesto e bom atendimento. Não oferece internet wifi. A comida é saborosa e servida em porções generosas, mas nada surpreendente. A Canoa é o restaurante que mais se aproxima de um estabelecimento requintado. As instalações são agradáveis, a decoração é sóbria e chega a ser acolhedora. O cardápio já é mais elaborado, os pratos são bem montados e a comida chega a surpreender. O atendimento é bom, oferece internet wifi. O preço é compatível com a qualidade dos serviços. O restaurante Deck Bistrô promete, mas sua estrutura ainda deixa a desejar. É novo, foi montado dentro do edifício do centro de artesanato, utiliza do espaço comum do centro para dispor suas mesas, o que tira um pouco da identidade do negócio e dá um ar de improviso. O atendimento é muito bom, presteza e cordialidade acima da média da região. A comida também é de primeira, bem apresentada, saborosa! Internet precária.

Decepção foi o restaurante da Luzia, em Atins. Luzia é uma figura muito citada nos guias e blogs de viagem. Muitos elegem a nativa como dona da receita secreta do “camarão dos deuses”, porém, nossa experiência em seu restaurante passou longe de ser considerada agradável. A cozinheira mostrou-se como uma criatura mal educada e arrogante, deslumbrada por ser tratada como atração turística da região. Parece que muita coisa mudou desde que Ricardo Freire apresentou essa pessoa ao mundo, através de uma crônica publicada na revista Época. E o camarão?! Apenas um camarão grelhado. Nem o próprio irmão suportou o mal humor da badalada cozinheira… Trabalhava junto com a irmã, mas resolveu abrir seu próprio restaurante. Como obtivemos essa informação já depois da decepção com a “estrela do camarão”, não tivemos a oportunidade de experimentar o restaurante do Sr. Antônio, muito elogiado pelos locais, tanto pela comida como pela simpatia no atendimento.

Enfim, a região dos Lençóis Maranhenses é dona de uma paisagem única, de tirar o fôlego. O potencial turístico da região é imenso, apesar da estrutura precária. Se estiver interessado em algo mais, além dos pacotes pasteurizados das agências locais, tenha disposição, perseverança e paciência. Não desista na primeira decepção, o esforço vale a pena! Se precisar de ajuda, pode recorrer ao Marcílio, dono da Alternativa Trip, uma agência instalada na avenida Beira Rio. Nossa experiência com  a Alternativa Trip foi positiva, ouviram nossas demandas e se esforçaram para nos auxiliar dentro das disponibilidades da empresa.       

(*) Rota das Emoções: roteiro turístico que envolve cidades dos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão; tendo como principais atrativos: o Parque Nacional de Jericoacoara (CE), a Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba (PI) e o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA).

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Publicado por: paulobedran | 08/05/2013

Viajando para Manaus

Viajando para Manaus

Neste post damos algumas dicas sobre Manaus, uma metrópole com quase dois milhões de habitantes, incrustada no coração da Amazônia. Cultura, boa gastronomia e surpresas naturais marcaram nossa estada na capital amazonense.

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Manaus está praticamente isolada do restante do Brasil; além da rodovia que a conecta com o estado de Roraima, resquícios da BR319 ainda permitem uma ligação precária com o estado de Rondônia. Manaus oferece variadas atrações turísticas. Para os ecoturistas, diversos passeios permitem o contato e a interação com o ecossistema amazônico. Para os gourmets, não faltarão restaurantes renomados. Para os interessados na história local, algumas construções de época ainda sobrevivem com dignidade. Planejando sua viagem, dois dias serão suficientes para conhecer as principais atrações da cidade.

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A capital amazonense teve importante papel na história de nosso país, foi a vedete do período áureo da borracha, chegou a referência internacional em urbanismo. No entanto,  não considero o centro histórico da cidade uma atração turística. Poucas são as construções mantidas em condições de serem consideradas representantes da arquitetura passada. Como um todo, o centro da cidade é bagunçado, sujo e mal cuidado. Mas existem edifícios históricos que merecem atenção, como por exemplo: a Catedral de São Sebastião, o Palacete Provincial e o Teatro Amazonas.

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Considero o Teatro Amazonas a obra arquitetônica mais interessante a ser visitada. Do ponto de vista histórico, é a manifestação mais significativa do próspero Ciclo da Borracha. Com mais de cem anos, encontra-se em ótimo estado de conservação e funciona como casa de espetáculos. O interior do teatro é encantador, as visitas guiadas revelam muito da riqueza cultural que a obra representa. Atualmente, acolhe a Orquestra Filarmônica do Amazonas, sedia o Festival Amazonas de Ópera e promove visitas guiadas. Está localizado no centro da cidade, na praça São Sebastião. Infelizmente, o teatro não dispõe de um site, informações sobre horários de visitação e espetáculos podem ser obtidos pelo telefone (92) 3232-1768.

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Diversas agências oferecem passeios para os atrativos naturais da região. Tipicamente turísticos, do tipo que eu odeio… dezenas de pessoas se amontoam em pequenas embarcações, se entretêm com caipirinha, ao som de ritmos locais, manejados por um guia que mais parece o líder de uma gincana, onde ganha quem percorrer os pontos primeiro. Se pensa como eu, não desanime, existe uma solução. Contrate um barqueiro no porto da Ceasa (3°8’3″S 59°56’25″W), você terá um passeio privado, por um preço justo. Tal porto fica um pouco distante do centro, pode-se ir de táxi, moto-táxi ou ônibus. Você poderá definir o percurso e o tempo de estada em cada local. Vale a pena conhecer o encontro das águas do Rio Negro com o Rio Solimões, as matas de igapó e os igarapés, aldeias indígenas, comunidades ribeirinhas… Pechinche! Os passeios chegam a sair até pela metade da oferta inicial.

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A praia fluvial da Ponta Negra merece ser visitada. A faixa de areia que dá nome ao bairro nobre manauara está sempre agitada. Nessa região, o Rio Negro se exibe com porte de mar, dada sua largura, chega a alcançar 23 quilômetros de uma margem a outra. Na Amazônia, a estação das chuvas se estende de dezembro a maio, tendo, o Rio Negro, seu ponto máximo da cheia em junho. Portanto, a faixa de areia diminui consideravelmente no primeiro semestre do ano. O calçadão faz parte de um complexo que abrange quadras de esportes, anfiteatros e restaurantes; local hoje consolidado como ponto de encontro da sociedade amazonense.

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Vou aproveitar a oportunidade para  dar uma dica gastronômica. Já ouviu falar da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança? Trata-se de uma entidade que promove e divulga restaurantes que se diferenciam pela excelência culinária e qualidade nos serviços. A ideia já existe há muito, na Itália, o Piattie del Buon Ricordo foi criado em 1964. Quando precisar de uma sugestão de um bom restaurante, dê uma olhada no site da associação, não vai se arrepender. Além da provável satisfação, você descobrirá o incrível mundo dos pratos da boa lembrança, peças de cerâmica com as quais tais restaurantes presenteiam aqueles clientes que apreciam certos pratos gastronômicos especiais. Os pratos tornaram-se elegantes objetos de decoração e coleção. Se ainda não é colecionador, pode começar a sua em Manaus, o premiado restaurante Banzeiro, participa com o prato Corte de Tambaqui Grelhado. Recomendo! Nesse, as receitas regionais são servidas com muito capricho e sofisticação, aproveite e prove a farinha uarini.

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Experimente os refrigerantes regionais de guaraná, os bombons de cupuaçu, o açaí, o tucupi e os peixes amazônicos. Manaus não se esgota nas dicas elencadas por aqui, existem diversas outras atrações e opções culinárias, no entanto, listei as que elegi como favoritas. Dar dicas de hospedagem é uma tarefa difícil, pois, indicar pressupõe um mínimo de comparação, assim, apenas compartilharei minhas impressões do hotel em que me hospedei, durante minha última estada, Hotel Saint Paul. Bem localizado, a duas quadras do Teatro Amazonas, excelente atendimento, acomodações amplas e aconchegantes, ótimo custo-benefício. Por fim, relato uma experiência ruim, o restaurante Barbacoa foi uma grande decepção, apesar de oferecer um ambiente requintado e acolhedor, tem um péssimo atendimento e a comida fica muito aquém do que propõe em suas campanhas publicitárias. Fico por aqui, aos viajantes, bon voyage!

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Publicado por: paulobedran | 01/05/2013

BR 319: Cruzando a Estrada Fantasma

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Mais conhecida como Estrada Fantasma, a BR-319 foi o desafio da vez. Alguns a confundem com a Transamazônica, mas a 319 é mais inóspita, mais precária, mais divertida… Cerca de 900 quilômetros separam a capital rondoniense da capital amazonense, e esse foi o nosso percurso, ida e volta! Sim! Volta também! De moto! Chuva, lama, buracos, calor, frio, fome, medo, raiva… um pouco do que vivemos em fevereiro deste ano. Fomos em cinco, cinco amigos, cinco guerreiros! A estrada construída pelo governo federal durante o regime militar deu lugar a uma traiçoeira cicatriz na maior floresta tropical do planeta. Boa parte do trajeto percorre regiões isoladas, o que tornou a logística da expedição ainda mais complicada. As dificuldades foram recompensadas com a oportunidade de experimentar um ecossistema preservado, com abundância de fauna, rios limpos,  florestas intactas e cenários maravilhosos. Coisa rara hoje em dia.

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Pouco ainda se vê do asfalto que um dia cobriu o leito da estrada. Durante a viagem, pudemos ouvir, dos moradores locais, histórias diversas que explicam como aquela rodovia federal desapareceu na selva. Os personagens da vida real revelam segredos intrigantes, dignos de um longa metragem sobre a corrupção no Brasil, envolvendo interesses escusos, empresários e políticos locais. De qualquer forma, apesar de alguns argumentarem que o isolamento da região traz prejuízos sociais às comunidades locais, particularmente, acredito que contribui com a proteção da floresta. O Brasil é um estado que não se faz presente, independente de estrada ou não. O único fator que mantém a floresta desta região ainda preservada é a dificuldade de acesso.  No entorno da rodovia existem inúmeras unidades de conservação, dentre elas, 11 federais, incluindo o Parque Nacional Mapinguari e o Parque Nacional Nascentes do Lago Jari. Mas aqui não é lugar para esta discussão, vamos falar da viagem.

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No período chuvoso, dificilmente o trajeto poderá ser vencido em um só dia. São centenas de quilômetros de estradas ruins, atoleiros, travessias de rios e prováveis quebras. Portanto, dois dias de estrada é um bom início de planejamento. Saindo de Porto Velho/RO, atravessamos a primeira balsa, sobre o rio Madeira. Neste trecho, o rio tem cerca de 1 quilômetro de extensão, a travessia dura 15 minutos, a um custo de R$ 5,00 por moto. Na outra margem, já está a BR-319. De Porto Velho a Humaitá/AM, são 210 quilômetros de estradas asfaltadas, em condições regulares de conservação. Humaitá deve ser considerada ponto de apoio, a cidade tem infraestrutura suficiente para sanar eventuais problemas com mantimento, manutenção dos veículos, combustível ou urgência médica. Daí em frente começa a aventura, próxima parada: Vila Realidade  (7°15’22″S  63° 9’19″O), povoado com pouco mais de 1.000 habitantes, perdido na imensidão amazônica.

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O cenário muda, são 100 quilômetros de terra, atoleiros e buracos, diminui-se consideravelmente o ritmo da viagem. Custa-se a vencer pequenos trajetos, aumenta-se a exigência das motocicletas, eleva-se o desgaste físico dos pilotos. A chuva nos acompanhou, sem tréguas, até Realidade. Foi um bom começo, as dificuldades encontradas neste início foram importantes para aclimatação dos pilotos, todos despertaram para o que os esperava pela frente. No povoado, pode-se obter gasolina, não há postos, alguns moradores estocam combustível para comercialização em suas próprias casas. O trecho a seguir é um dos mais complicados, pois, são 350 quilômetros até o próximo povoado, Vila Igapó-Açu ( 4°42’45″S  61°17’36″O).

O principal desafio logístico neste intervalo é o combustível, caso o veículo não possua autonomia, há que se levar combustível extra na bagagem. Dica: garrafa pet. Apesar de sua utilização ser restringida por lei, mostra-se como uma opção econômica e segura. Basta tomar as devidas precauções: cheque a vedação da embalagem, não a encha até a boca e amarre em local seguro em relação a quedas e ao calor. Existem garrafas próprias para o transporte de combustível, como as fabricadas pela empresa espanhola Primus, têm a capacidade máxima de 2 litros e, no Brasil, custam em torno de R$ 100,00. O alto valor se deve, além do Custo-Brasil, às características do produto: fabricado em alumínio, revestido internamente com material antioxidante e tampa com válvula de controle de pressão.

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Vila de Igapó-Açu.

Sanado o problema do combustível, é só acelerar até Igapó-Açu. Neste extrato da rodovia, a pista é predominantemente irregular, passando por todos os tipos de terrenos. No quilômetro 100, após Realidade, está a Fazenda dos Catarinos, outro local onde pode-se conseguir apoio, em razão da presteza e cordialidade da família proprietária. A vila é uma ótima opção de repouso, tem hospedagem, comida e o lindo rio que dá nome ao lugar. Aquele que não conseguir alcançar Igapó, tem a opção de pernoitar acampado pela estrada. As áreas no entorno das torres de transmissão da Embratel são boas opções para montar acampamento, tem uma a cada 45 quilômetros de estrada. A Hospedagem Beira Rio, propriedade do senhor Raimundo, é a única opção para pouso, fica às margens do rio Igapó-Açu. A pernoite custa algo em torno de R$ 30,00 por pessoa, serve-se uma boa refeição à base de peixes frescos por cerca de R$ 10,00.

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Hospedagem em Igapó-Açu.

Último trecho, aproximadamente 250 quilômetros separam Igapó do povoado de Careiro da Várzea (3°11’19″S  59°52’8″O). Após a balsa do Igapó-Açu (R$ 5,00 por moto), restam 60 quilômetros de estradas precárias, crateras imensas e atoleiros intermináveis. Ao avistar o Batalhão de Engenharia e Construção do Exército Brasileiro, lá está o asfalto. O primeiro trecho do asfalto deve ser encarado com cuidado, muitas falhas e pouca sinalização. Vencido este trecho, o asfalto acompanha o viajante até Careiro, onde pega-se a balsa para Manaus. A travessia custa R$ 10,00 por moto e dura cerca de 1 hora e meia. Enfim, Manaus. A capital amazonense oferece diversas opções de lazer aos visitantes, mas, essas eu conto noutro post.

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Travessia do rio Solimões.

Os marinheiros de primeira viagem deverão se preparar para as eventuais necessidades de manutenção da motocicleta. O sistema de freios e a relação são muito exigidos, principalmente no período das águas. A lama que impregna a mecânica é responsável por acelerar o processo de desgaste das peças. Recomendo levar pastilhas sobressalentes e verificar, antes da saída, a condição da relação. Por esse mesmo motivo, a constante lubrificação da corrente é imprescindível. O isolamento da região faz com que pequenos imprevistos se transformem em grandes problemas. Um simples pneu furado pode representar significativo inconveniente à viagem. Para tanto, dois grupos de produtos podem auxiliar o viajante: os selantes em gel (“vacinas”) que previnem a perda de ar e os reparadores instantâneos que, além de repararem o furo, prometem a reposição do ar. O cárter e as manetes de comando devem ser protegidos, pois, quedas são muito prováveis. Não esqueçam do velho rolo de arame e da funcional “silver tape”, a trepidação por tempo tão prolongado é devastadora.

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Manutenção da motocicleta.

As opções de alimentação são limitadas, mesmo assim, pode-se comer bem pelo caminho. Na Vila de Realidade, logo após a ponte, tem uma pequena mercearia onde é servido um nutritivo pão com ovo. Na pousada de Igapó-Açu, servem-se refeições, uma boa comida caseira acompanhada do peixe fresco do dia. Já no trecho final de asfalto, logo depois da ponte sobre o rio Tupana, tem uma venda, onde, além de alimento, consegue-se combustível.

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Publicado por: paulobedran | 11/03/2012

São Miguel dos Milagres

São Miguel dos Milagres é um paraíso incrustado na Costa dos Corais, nome pelo qual é conhecido o litoral norte alagoano. A vila de pescadores guarda praias incríveis, pousadas de charme e um povo humilde e hospitaleiro. Apesar da proximidade com a capital e do litoral exuberante, a natureza resiste, milagrosamente, à devastação do turismo predatório de massa. Ainda não existem grandes estabelecimentos hoteleiros na região. Simpáticas e requintadas, as poucas pousadas existentes acolhem os turistas que visitam o pequeno município. Destaco a Pousada Origami, propriedade do sansei Marcos Suzuki, quem nos recebeu com muita hospitalidade. Impressionante como boa parte dos forasteiros que se instalaram em São Miguel tem conseguido intervir positivamente na comunidade local, proporcionando emprego, qualificação profissional e a disseminação de uma cultura ambiental sustentável.

Pousada Origami

As praias são a grande atração do lugar. Difícil ranqueá-las, são tantas, tão belas e tão distintas que não vejo como eleger preferidas. A faixa de areia branca percorre quilômetros balizada, de um lado por um mar turquesa, doutro por paredes de coqueiros. Em Barra de Santo Antônio – município vizinho – o viajante pode apreciar incríveis falésias e resquícios da tão ameaçada mata atlântica. Trata-se da única região do estado onde o referido bioma ainda encontra-se com a praia. A melhor maneira de explorar os segredos litorâneos é caminhando.

Se tiver disposição, três dias serão suficientes para destrinchar o litoral. No primeiro, partindo da Praia do Centro,  rume ao norte, tendo Porto de Pedra como destino (15 km). No segundo, tendo como ponto de partida a Praia do Centro, caminhe para o sul, em direção ao rio Camaragibe (9 km). No terceiro, inicie da Barra de Camaragibe e aventure-se até Barra de Santo Antônio (15 km). Utilize a tábua de marés no planejamento, pois, alguns trechos ficam mais difíceis de transpor na maré cheia: como as regiões de falésias e as de estuários.

Cumpridas as três etapas, terá desfrutado do que há de mais incrível no litoral alagoano. Para otimizar o tempo, caminhe apenas a ida.  A opção mais fácil para retornar a São Miguel no final do dia é o serviço de moto-táxi. Não existem táxis convencionais na região, tampouco transporte público coletivo regular. Busque informação sobre o serviço de moto-táxi junto aos funcionários da pousada na qual estiver hospedado. A estrada que liga Barra de Santo Antônio a São Miguel dos Milagres é significativamente mais extensa do que o trecho de litoral que separa os municípios. Assim, sugiro que, para o retorno do terceiro dia, seja utilizado o coletivo intermunicipal.  Não esqueça de levar água e algo para comer, as praias são desertas, há longos trechos sem opções de comércio de qualquer espécie.

 

No primeiro trajeto, em poucos minutos alcança-se a foz do rio Tatuamunha, um lugar de beleza ímpar. Tal rio é um dos mais conhecidos da região, nele encontra-se instalado uma unidade do Projeto Peixe-Boi, iniciativa responsável por reintroduzir à natureza a espécie ameaçada de extinção. A base do projeto fica alguns quilômetros rio acima e pode ser visitada, desde que com o devido agendamento. Na maré baixa atravessa-se o Tatuamunha, com certa facilidade, com água à cintura. Se der a sorte que demos, poderá deparar-se com um peixe-boi marinho curtindo as rasas águas cristalinas do lugar. Poucos foram soltos até então e nem todos sobreviveram; a improbabilidade daquela experiência a tornou ainda mais incrível. O mamífero assusta pelo tamanho e encanta pela docilidade, estima-se que existam apenas cerca de 500 animais ainda habitando o litoral brasileiro. Outras surpresas lhe aguardam pelo caminho, umas delas é a Praia de Patacho.

No trecho do segundo dia, destaque para a Praia do Marceneiro e a Barra de Camaragibe. Para fechar com chave de ouro, enfim, o terceiro dia. Peça ao moto-taxista para deixá-lo na balsa próxima à foz do rio Camaragibe, do outro lado fica a Praia do Morro, o ponto de partida. Rume sentido sul, paisagens de tirar o fôlego lhe esperam. Da Praia do Morro à Praia Carro Quebrado, as falésias dominam o visual. No meio do caminho fica a Praia da Pedra da Cebola, uma pequena faixa de areia, um visual deslumbrante, corais, mata atlântica, mar turquesa, falésias douradas… uma combinação dos deuses. 

O artesanato local é autêntico e de ótima qualidade, destaque para a renda filé e as sandálias de couro. A Associação das Costureiras especializou-se na fabricação de peixes-boi de pelúcia; o animal, símbolo da região, ganha faces mil e multicoloridas nas mãos daquelas artistas.

Associação das Costureiras

Vale a pena visitar também o ateliê do Lima, especialista em sandálias de couro. O irreverente artesão encanta pela simpatia e pela arte. A tradicional renda filé é outro ícone alagoano. Charmosa e rústica, a renda confeccionada em tear manual adorna toalhas, vestidos e tantos outros adereços. Móveis construídos com madeira de jaqueira podem ser encontrados com certa facilidade no município.

Ateliê do Lima

Se tiver a oportunidade, não dispense a prosa dos locais. Os acanhados nativos são donos de vasta sabedoria. Não há melhor do que o pescador para ensinar sobre o movimento das marés, do que a rendeira para explicar a técnica de engomar, do que o sorriso das descalças crianças para lembrar o que é felicidade.

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